7.7.08

Arte: o que é mesmo?

A arte contemporânea trabalha com a idéia de fronteiras: não se estabelece um limite rígido entre arte e o cotidiano, eles freqüentam os mesmos espaços – públicos, muita das vezes. Houve a necessidade de retirar a obra do museu, suprimir o lugar sacralizado. Alterar a relação receptor-criador, aproximá-los. Por isso a utilização, pelos artistas, de materiais diversos: poeira, alimentos perecíveis, couro, borracha... Com tudo isso se faz arte. O fazer artístico tradicional – pincel, tela, tinta para a pintura e o bronze, marfim, pedra para a escultura – há muito foi reinventado. Fique claro: não abolido. Mas os artistas durante anos perceberam a necessidade de repensar o modus operanti da arte: o que ela é afinal? Se representação da vida, por que não olhá-la mais de perto. Por que não interagir? O modelo de representação clássico – a mimese da natureza, a perfeição das formas – deu origem à imperfeição do olhar. Por isso, hoje, a valorização da subjetividade, do eu como sujeito pensador. Conceituar talvez mais urgente do que executar. Na contemporaneidade dá-se mais importância àquele que observa a obra, ao mero passante distraído que, ao ver, surpreende-se. O artista contemporâneo quer isso: o estranhamento, o asco, o questionamento. Ora, vivemos em um mundo em que as questões estão todas em aberto. O que faremos com o lixo? Com a miséria? Com o supérfluo? A arte tem como função reorganizar os debates, levá-los para o campo estético. Por quê não?

Por isso, artistas de todas as vertentes têm muito a comemorar no mês de julho. Chega até a cidade de São Paulo obras do mais importante pensador de arte do século XX: Marcel Duchamp. O artista que em 1913 (!) já indagava a arte exposta nos grandes salões, reinventava obras ao deslocar objetos do dia-a-dia para mostrá-los em museus ( um mictório, a roda de uma bicicleta, um escorredor de garrafas ) e dizia: sim, “tudo o que eu disser que é arte será arte”. Lógico, fez muitos inimigos pelo caminho. Nas décadas de 20, 30, 40 poucos entendiam o que Duchamp queria com sua ousadia. Ele queria discussão. Ele queria pensar arte. Enxergou que muito além da obra estava o mercado: por que instituições sobrevalorizavam um artista em detrimento de outro, quem detinha o poder de decidir quais obras seriam expostas em museus? Então todo artista contemporâneo deve um pouco a Marcel Duchamp. Ele é precursor e um tipo de “padrinho” de todos hoje. Contribuiu também para repensar o espaço em obra (pôs em prática o termo muito antes deste ser conceituado por Alberto Tassinari no livro O Espaço Moderno).


Portanto, se você mora em Sergipe, Oiapoque, Uberaba, São Paulo ...enfim... não deixe de visitar a mostra comemorativa dos 60 anos do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) que exibirá 150 obras desse grande artista a nós, simples mortais. Vá de ônibus, de excursão, de avião, de barco...mas não perca. Será a maior exposição do artista na América Latina – passará por Buenos Aires também.

O nome da mostra: Marcel Duchamp: uma obra que não é uma obra 'de arte'.
Curadoria de Elena Filipovic.

Quando: de 15 de julho a 21 de setembro. De terça a domingo e feriados, das 10h às 18h

Onde: MAM - Parque do Ibirapuera / São Paulo R$ 5,50



Fernanda Faturetonandafatureto@msn.com
É jornalista, dona do blog
http://avecbr.blogspot.com e está sempre com o coração entre Minas - São Paulo.




Duchamp, NY - 1948
http://www.temple.edu/photo/photographers/Irving%20Penn/galleries/portait%20gallery/pages/duchamp.html




Ready Made, Duchamp.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Duchamp



A fonte, Duchamp.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Duchamp

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